09 de Setembro de 2010








Editorial

* EDITORIAL *
 

PALAVRA DO PRESIDENTE

A cultura de SST no Brasil

 

Posso afirmar que o Brasil possui uma cultura prevencionista. Há mais ou menos 40 anos, o país já apresenta um modelo cultural de saúde e segurança do trabalho, certamente, levando em conta de que `Cultura´ é um complexo de padrões de comportamento. Contudo, sabemos que prevenção de acidente e doenças de trabalho é feita através de um trinômio: investimento, informação e comprometimento. Qualquer ação concreta nessa área passa por essa base.

Mesmo com essa realidade cultural, ainda amargamos mais de três mil mortes por acidente de trabalho por ano; catorze mil trabalhadores são afastados definitivamente por conseqüência de acidentes e doenças e 700 mil são afastados pela Caixa da Previdência Social. O que nos intriga é que alimentamos a cultura de ações corretivas, em detrimento da prevenção. Outro ponto importante para ser destacado é a cultura da culpa. Recentemente, uma pesquisa elaborada pelo Sintracon-SP apontou que 85% dos trabalhadores acidentados assumiram que o acidente aconteceu por descuido próprio. Isso acontece porque estamos o tempo todo difundindo junto aos trabalhadores mais ações focadas na disciplina do ambiente e esquecemos que tão importante quanto isso é a empresa que tem o poder de intervenção e oferecer condições de trabalho adequadas.

Existe, também, um problema ligado aos formadores de opinião em vincular os acidentes de maior impacto com as relações do trabalho. Sabemos que o Ayrton Senna morreu em decorrência de um acidente do trabalho. Entretanto, em nenhum momento foi atribuída sua morte à relação de trabalho. Outro exemplo bem factível é do maior pintor Brasileiro, Candido Portinari, que morreu vítima de doença respiratória por causa das tintas que utilizava. Todas essas variáveis faz com que uma eventual política de SST seja inibida pela sociedade e pelo empresário, que ainda enxerga a SST como custo, e não como investimento.

Quase todos os atores que tem responsabilidade prevencionista valorizam muito a construção de normas. Na prática, sabemos que fazemos segurança com ação concreta e objetiva, e se cumpridas as normas já existentes, teríamos um impacto positivo, nunca visto antes.

Certamente, o principal motivo da identificação da nossa cultura de SST merecer uma reflexão vem da própria identidade do setor. Existe uma corrente que entende que essa é uma questão de saúde pública. Tem outra corrente que entende que essa é uma questão de saúde do trabalhador. E uma terceira corrente que entende que essa é uma questão de saúde e segurança do trabalho. Nós defendemos a terceira situação. Temos que ter consciência que não vamos resolver os problemas do país nesses pressupostos. Se não entendermos dessa forma ocorrerá esse resultado que temos hoje, ou seja, todos atirando para todos os lados e não acertando em lugar algum. Temos cultura em SST, mas essa cultura tem que ser repensada, pois ela é embasada numa realidade ultrapassada, baseada na culpa e 'apagar incêndio' sem prioridade na prevenção.



Armando Henrique
Presidente

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